Between Addiction and the Pure

Entre o Vício e o Puro
por Rosemeire Odahara Graça
Profa. Doutoranda em Educação da Arte pela Universidade de Londres

Nesta sua segunda exposição individual, Erica Kaminishi discute o vício e a pureza do jogo. A artista compõe com a natureza formal dos tabuleiros dos jogos de mesa, e com conceitos de Gadamer e Marcuse sobre a dependência e o prazer do humano com o lúdico. Continuando a trabalhar com o pastel oleoso sobre papel, a compor com formas geométricas e a usar a escrita como elemento gráfico ao mesmo tempo que conceitual, Erica começa a definir seu estilo criativo pessoal para o público. Mas, apesar disso, nesta mostra, a artista causará surpresa àqueles que pensam já terem visto tudo de inovador que ela poderia oferecer às artes visuais.

Brincando com a tradicional seqüência de exposição de obras de arte, Kaminishi compõe uma segunda e grande obra por uma alternativa forma de disposição de seus trabalhos. Ao longe, o observador pensará estar visitando a exposição de uma única obra; porém, de perto, perceberá que cada módulo dessa grande composição é um complexo universo, no qual a repetição de frases como “É o jogo a pura realização do prazer momentâneo” e “O sujeito do jogo é o próprio jogo” desenvolvem papel substantivo. A criação sobre princípios de dualidade, outra marca da identidade estilística de Erica, faz-se também presente nesta exposição e de novo ela surpreende. Ao trabalhar com conceitos de oposição e definição de cheio e de vazio, claro e escuro, geométrico e orgânico, inocência e perversão, grande e pequeno, parte e todo, Kaminishi resgata de modo consciente o passado próximo da história da arte, ao dialogar, simultaneamente, com conceitos plásticos de impressionistas, concretistas e conceitualistas. Ainda, a artista define uma linguagem plástica contemporânea, na qual o maneirismo viciador e a pureza criativa são sucessivamente questionados.

Curitiba, 2003.


Exposição Museu Metropolitano de Curitiba, PR 2003


Exposição Fundação Cultural de Joinville, 2004

Vertigem das Palavras
por Walter de Queiroz Guerreiro
Membro da Associação Brasileira e Internacional de Críticos de Arte – ABCA/AICA

No simulacro de uma experiência plástica assumem-se os papéis da vida

No grande jogo da existência, Érica Kaminishi nos conduz, através de uma experiência pictórica, a vivenciar nosso espaço interior. De grande rigor formal, sua exposição da Galeria Municipal de Arte Victor Kursancew em Joinville, causa à primeira vista a impressão de estarmos frente a mais uma releitura de experiências do movimento neo-concreto, na transcendência de novos significados para tempo, espaço, forma e cor. Círculos brancos sobre fundo preto ou ao inverso, seções de circunferências, deslocamentos induzidos pelas linhas encurvadas que atravessam figuras e fundo, tudo é no início, geometria pura. Ao nos aproximarmos vemos que as formas são geradas por frase incessantemente repetidas, e o campo é o espaço limitado de uma casa num tabuleiro de jogo. Casas alternadas, brancas e retas que bem se prestam a situações de conflito, da ordem contra o acaso, do indivíduo em relação ao universo, preenchidas pela artista com palavras, criando um diálogo, como rito de adaptação ao mundo.

Fica entretanto claro, que as pedras do jogo de Érica se deslocam numa espiral plana, permanência da afirmação do ser sobre a fugacidade do momento, e as linhas de força são um redemoinho, o “Maelstrom” de Edgar Allan Poe, nos atraindo inexoravelmente para seu vórtice, além da superfície. As linhas revelam-se palavras, frases contínuas, e o espectador passa à condição de participante de um jogo com a artista, que nos incita a mergulhar na leitura, a assumir o risco da compreensão de um sentido.Repetem-se assim as frases, em que a mensagem estabelece um discurso independente do destinatário, acrescentando um fim exterior à própria mensagem em um jogo dramático imposto quando ela afirma no tabuleiro que “o sujeito do jogo é o próprio jogo”. O desvendamento de uma frase conduz a outra, observador passando a condição de experimentador de um jogo que se joga, na tentativa de compreensão da própria obra, que é o jogo.

O encadeamento dessas frases, ao mesmo tempo que são parte constituinte do próprio jogo, servem na formação de uma consciência de alteridade do texto, de uma cognição que se constrói na interpretação da obra. O branco e o preto das pedras não são apenas símbolos de oposição, apontam na existência do cinza, período de mutação que possibilita a continuidade, o dinamismo do tempo e espaço sob a ação do homem.

No turbilhão de palavras proposto pela artista, manobra diversionista de sua real intenção, ela nos entrega o jogo: “este é o meu jogo. Existe liberdade no olhar, o meu nunca será como o seu. Joga-se como quiser. É um emanharado de citações, segredos e charadas, mas apenas é um jogo de palavras”. Na vertigem das palavras, o impulso lúdico se torna impulso de arte, quando se torna consciência do valor de nossas ações e da relatividade de nossa consciência, sobre as aparências do mundo.

Joinville, Abril de 2004