Inverses

Takeshi Kanazawa
Crítico de Arte e prof. Emérito da Universidade
Seian de Arte e Design, Japão

Neste ano completam-se 100 anos desde que Kasato Maru, o primeiro navio que levou imigrantes japoneses ao Brasil, desembarcou em Santos. No Brasil vivem em torno de 1 milhão e 300 mil nikkeis, o que o torna o país com o maior número de japoneses fora do Japão. A primeira geração de japoneses dedicou-se principalmente à agricultura e ao comércio e ainda hoje tem muitas histórias de dificuldades e superações para contar. Por sua vez, a segunda, a terceira e as gerações seguintes puderam desfrutar de educação superior, vindo gradativamente a ocupar lugares de destaque na sociedade brasileira, nas áreas político-econômica e acadêmica. Além disso, a sociedade nipônica no Brasil contribuiu com diversos especialistas no mundo artístico, a área de maior expressividade no domínio cultural.

O Brasil sempre foi conhecido como o país que ocupa a maior extensão territorial na América Latina e como um país com forte vocação agrícola e extrativa; porém nos domínios artístico e cultural esteve em desvantagem com relação a outros países latino-americanos, como a Argentina e o México. Entretanto, a Bienal de São Paulo, iniciada em 1951, a cada edição vem trazendo grandes resultados a um país que ainda se desenvolve na área artística. Hoje em dia é inegável que o Brasil seja o primeiro país a ser citado quando se fala em arte latino-americana.
Até há pouco tempo, quando se falava em cultura artística no Brasil, normalmente referia-se à arte produzida no eixo Rio-São Paulo, porém, recentemente, outras capitais como Brasília, Porto Alegre e Curitiba passaram a atrair a atenção da crítica internacional. Pois é em Curitiba, capital do Estado do Paraná, que atua a presente artista Érica Kaminishi, atualmente residindo no Japão, onde vem desenvolvendo seu processo de reflexão artística. Ela cresceu em Londrina, a cidade com maior concentração de nikkeis, depois de São Paulo, e após terminar o Ensino Médio veio ao Japão para aprender a arte da cerâmica japonesa. Depois de adquirir conhecimentos na área, retornou ao Brasil onde aprimorou a sua técnica e recebeu a educação legítima na área de Artes, estudando no Departamento de Artes da Faculdade de Artes do Paraná. Após terminar seus estudos, ela retornou ao Japão, dessa vez, como bolsista do Ministério da Educação e Ciências do nosso país e atualmente é mestranda na Universidade Nihon, no departamento de Artes Visuais e Cinema, onde está aprimorando seus conhecimentos sobre Imagem e Expressão.

A tendência mais marcante da obra de Érica Kaminishi é a construção de imagens por meio de palavras. Quanto à configuração, a maioria delas possui formas singelas e abstratas, porém essas formas se sobrepõem e se expandem, evoluindo para figuras orgânicas que se transformam em progressões contínuas. À primeira vista, apenas enxergamos a superfície que se estende através das curvas, mas após uma observação mais atenta, surpreendentemente, essas superfícies revelam-se feitas de palavras escritas a caneta tinteiro, esferográfica ou por meio de coberturas/camadas pictóricas. O alinhamento de palavras, disciplinadamente escritas, provoca uma tensão fora do comum, e a sua habilidade, tal qual a de um artesão, faz com que se perceba uma capacidade técnica de alto nível. Podemos dizer que, nesta obra, a técnica formada pelos traços alinhados pode ser classificada como “drawing”, ou grafismo. No entanto os traços alinhados a que aqui referimos não se tratam de simples linhas, mas de letras e palavras. O diferencial estilístico de um escritor consiste no uso de letras como ponto inicial de sua expressão. As letras abrigam idéias e expressam o estado poético da mente. Érica gosta de utilizar em suas obras as poesias do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, ou às vezes a palavra “eu” de forma múltipla.

Érica Kaminishi é nikkei da terceira geração, e logo após ter terminado o Ensino Médio morou em Tóquio por três anos. Sua impressão dessa época pode ser expressa na seguinte frase:
“ Os nikkeis que estão no Brasil pensam que são japoneses, mas quando vim ao Japão, há 10 anos, percebi que era japonesa apenas fisicamente.”
Este é um pensamento comum entre os nikkeis da segunda e terceira gerações. Fisicamente, os nikkeis possuem as características dos seus ancestrais nipônicos, mas cultural e espiritualmente, possuem firmemente a herança cultural do país em que nasceram e cresceram.
Quando a identidade e a aparência física são muito diferentes, torna-se difícil obter credibilidade de qualquer uma das partes, devido à transmissao de uma impressão inacabada ou incompleta. Essa é uma situação vivenciada por outras etnias, e ainda mais notória no interior de colônias linguísticas e culturais, como é o caso da japonesa. Por esse motivo, não há dúvida do desconforto e sentimento retorcido que os nisseis e sanseis que nasceram no Brasil vivenciam quando confrontados com os dois países.

Érica Kaminishi, ao longo do seu processo de formação artística, parece continuamente contemplar o seu eu interior e, sem refugiar-se em solo étnico, busca sua auto-expressão por meio de palavras. Na sua obra, toma emprestadas as imagens do mundo natural e, utilizando letras ou símbolos com bastante freqüência, transmite a segurança de quem prossegue em direção a um caminho que parece estar claramente demarcado, apesar das angústias e dúvidas que acompanham o processo criativo. As obras inéditas apresentadas nesta exposição têm como referências semânticas e imagéticas as formas dos rios que permeavam a cidade de Tóquio, representados no mapa da era Edo de 200 anos atrás. Além disso, expressam a transformação sígnica das anotações dos topônimos e dos emblemas familiares, compostos em progressão contínua, que são sua marca estilística, através da qual busca ambiciosamente expressar o tempo e o espaço.
Tocou-me profundamente a preciosa presença de nikkeis que não são japoneses, mas são grandes intérpretes da cultura japonesa, de uma forma que os próprios japoneses não seriam capazes de transmitir.

Tóquio, 12 de fevereiro de 2008


Tradução: Lilian Mitsuko Yamamoto
Revisão: Maria Fusako Tomimatsu e Christopher Zoellner